Dica do especialista
Mensalmente, um especialista dará seu recado por meio de um bate-papo rápido e direto. As perguntas são simples para ajudar você a arrumar suas finanças e não entrar no vermelho nunca mais.
Acompanhe!
_____________________________________________________________________
Especialista dá dicas para controlar suas finanças
O entrevistado da vez é o empresário Carlos Alberto Debastiani. Atuando no setor de Informática, o empresário prestava serviço para grandes instituições financeiras do segmento bancário e empresas de consultoria. Devido a esta proximidade e vivência no mercado financeiro, se dedicou ao estudo de finanças e sempre aplicou, em sua vida financeira pessoal, os conhecimentos adquiridos ao longo de seu exercício profissional, o qual compartilha no seu livro Pare de Viver na Corda Bamba. Segundo ele, o mais importante na vida financeira é ter Controle. Confira abaixo as dicas!
1 – Qual sua dica para quem quer sair do vermelho?
Carlos Alberto: Em primeiro lugar é preciso conhecer a fundo quais são suas dívidas para poder classificá-las a fim de decidir quais são mais importantes ou as que causam mais estrago no seu orçamento. Nessa tarefa poderá identificar qual está mais atrasada, em qual delas a incidência de juros é maior, qual a periodicidade dessa incidência e qual tem maior chance de ser renegociada.
Normalmente, as mais sérias são as do cheque especial e do cartão de crédito, pois os juros são altíssimos, e devem ser saldadas o quanto antes, para conter a sangria financeira. As que estão com pequeno atraso são mais fáceis de renegociar, pois ainda não houve um grande desgaste com o credor e a incidência de juros é menor. A renegociação é interessante, nesses casos, porque permite “esticar” o prazo de pagamento (com cobrança de juros, é claro). No entanto, se você mantém em dia o pagamento das parcelas, sua dívida não cresce feito uma bola de neve, sem controle (como ocorre com os juros do cheque especial). Além disso, uma dívida renegociada não leva seu nome para os sistemas de proteção ao crédito (como ocorre quando você está inadimplente), permitindo seu acesso ao crédito, em negócios futuros.
Conseguir um empréstimo com juros mais baixos do que os que incidem sobre sua dívida atrasada pode ser um boa opção, pois você estará trocando uma dívida cara por outra, mais barata. Muitas empresas oferecem esse tipo de empréstimo a seus funcionários, cobrando juros bastante atrativos.
O passo seguinte é fazer sobrar um pouco mais do seu salário no final do mês, para colocar as contas em dia. Se não sobrar, elimine alguma despesa não essencial e use o dinheiro economizado para saldar as dívidas. Por exemplo: abandone a academia (que é paga) e faça uma caminhada diária (que é de graça) ou cancele a assinatura de revistas, jornais, pacotes de TV a cabo ou acesso à internet.
2 – Por que recomenda esta dica?
CA: Muitas pessoas se desesperam diante de uma situação como essa e não conseguem montar uma estratégia para sair da crise. Outras acabam se acomodando ao caos financeiro e pensam que “a vida é assim mesmo” e que “todo mundo vive no aperto”, apenas para fugir à responsabilidade de administrar suas finanças. Só que isso não é verdade! Podemos, sim, nos organizar e planejar de forma equilibrada nossos gastos e, até quando não fazemos isso, ainda é possível montar uma boa estratégia para sair do aperto. O planejamento costuma ser a solução para quase todos os problemas financeiros. Há uma infinidade de ações que podemos tomar para reduzir os impactos ou até eliminar os efeitos danosos do endividamento, desde a renegociação ou a substituição dos passivos, até a troca do automóvel novo por um mais antigo (e mais simples), ou a redução do gasto com despesas pessoais.
3 – Qual o conselho que costuma dar para quem não quer entrar no vermelho nunca mais?
CA: O mais importante deles é: viva dentro da sua realidade financeira. Não tente aparentar a abundância financeira que você não tem. Se retirássemos das ruas todos os automóveis que ainda tem mais de 2 anos de financiamento pela frente, certamente resolveríamos os problemas de trânsito em todo o país. Podemos ter os bens que desejamos? Sim, mas o financiamento (que significa: comprar com o dinheiro que você não tem) nem sempre é a melhor opção. Poupar primeiro, planejando, para comprar depois normalmente é a melhor estratégia.
4 – Na sua opinião, quais são os maiores erros das pessoas que ficam endividadas?
CA: De uma forma geral, é a falta de controle sobre as despesas. A maioria das pessoas não gosta de controles, não costuma anotar seus gastos, nem controlar quanto de seu orçamento já está comprometido com prestações e parcelamentos. É natural e fácil calcular se uma prestação cabe ou não no seu bolso, mas quase sempre essa consideração é isolada e ninguém se lembra de somar essa dívida que está prestes a contrair com as demais que já possui, para ver se o montante gerado continua a caber no orçamento. O uso descontrolado do cartão de crédito é, de longe, o maior fator de endividamento. Como realizamos uma série de pequenas compras com ele (e ainda parcelamos outras) é fácil perder o controle sobre o volume financeiro que essas operações podem gerar até o próximo vencimento da fatura.
Outro erro comum é o uso indiscriminado de financiamentos e a total despreocupação com as regras de reajuste ou os índices de referência adotados para correção da dívida. A oferta de crédito no mercado é abundante e as pessoas ignoram que devem selecionar o que deve e o que não deve ser financiado.
5 – Como evitá-los antes que entre neles?
CA: Planejamento e controle sobre sua vida financeira ainda são as melhores armas do consumidor. Poupar antes para gastar depois também faz uma enorme diferença no quanto se paga para adquirir um determinado bem. Compras à vista, além de não ter incidência de juros, ainda oferecem possibilidade para negociação de descontos. As pessoas que compram à vista, hoje em dia, são raras e isso “salta aos olhos” dos lojistas, porque representa capital de giro com disponibilidade imediata. Acostumados a vender à prazo, muitos deles já embutem juros nos preços anunciados, para depois dizer que parcelam sem acréscimo. Sempre que for pagar à vista, negocie e você conseguirá um bom desconto. Não comprometa mais do que 40% de sua renda líquida mensal com parcelamentos. Quando perceber que está chegando nesse limite, protele as novas compras até que um dos parcelamentos vigentes termine. Evite financiar passivos, ou seja, bens que irão gerar outros gastos além daqueles inerentes à sua aquisição. O automóvel de passeio é um deles, pois agrega despesas adicionais como seguro, combustível, estacionamento e manutenção, fora o alto grau de depreciação que acumula ao longo do tempo.
6 – Mais alguma coisa que ache interessante e queira comentar?
CA: Creio que falta ao brasileiro algo que encontramos com certa facilidade na população de países mais desenvolvidos: a cultura de investimentos. O brasileiro não tem o hábito de poupar para investir, e isso não está relacionado ao volume de sua renda mensal. Podemos encontrar, até mesmo nas classes mais abastadas, pessoas com ótimos salários, mas totalmente incapazes de poupar um único centavo ao final de cada mês. Mesmo quem o faz, adota a displicência como regra, salvando apenas algum valor excedente neste ou naquele mês, e acaba consumindo essa reserva no curto prazo, sem estabelecer um plano sério e regular de poupança para investimento, com objetivo definido. Essencialmente consumista e incapaz de poupar, o brasileiro vive sufocado por financiamentos e uso indiscriminado do crédito rotativo, num círculo vicioso e interminável de dívidas. Vive na corda bamba.